Florestan Fernandes nasceu em São Paulo, no dia 20 de julho de 1920. Sua mãe, Maria Fernandes, era uma imigrante portuguesa, analfabeta, que sobrevivia como lavadeira. A madrinha, patroa de sua mãe, o chamava de Vicente, pois considerava que Florestan não era nome adequado para pobre.
Começou a trabalhar aos seis anos de idade para ajudar sua mãe no sustento da casa. Foi engraxate, auxiliar de marceneiro, auxiliar de barbeiro, alfaiate, balconista de bar, cozinheiro. Parou de estudar aos nove anos de idade, no terceiro ano primário, por não conseguir conciliar a escola com o trabalho. Somente aos 17 anos, concluiu o Madureza (supletivo), por incentivo dos clientes do Bar Bidu (Rua Líbero Badaró-São Paulo), que o achavam muito inteligente. Eles se impressionavam com os comentários do jovem balconista e cozinheiro sobre a política e a realidade brasileira.
Quando ingressou na Universidade de São Paulo (USP), era vendedor de produtos farmacêuticos. Queria ser professor. Escolheu o curso de Sociologia porque tinha vaga à noite, permitindo que trabalhasse durante o dia. O impacto da universidade é assim descrito por ele: “O Vicente que eu fora estava morrendo e nascia em seu lugar, de forma assustadora para mim, o Florestan que eu iria ser”.
Obteve a licenciatura em 1943. Em 1944, casou com Myriam Rodrigues com quem teve seis filhos. No mesmo ano do casamento, tornou-se assistente na cátedra de Sociologia II na USP. Em 1947, recebeu o título de Mestre com a tese “A Organização Social Tupinambá” e em 1951, o doutorado com a dissertação “A função social da guerra na Sociedade Tupinambá”.
Por conta de sua capacidade e desempenho, teve carreira rápida na USP. De assistente de cátedra a livre docente e professor titular da cadeira de Sociologia até 1964, ano em que se efetivou na cátedra, da qual seria aposentado compulsoriamente em 1969 com base no AI-5 da ditadura militar.
A Ciência como meio de transformação social
Na década de 40, participou de um grupo de estudos do marxismo. Foi professor de renomados intelectuais como Octávio Ianni e Fernando Henrique Cardoso, razão pela qual era chamado de Mestre dos Mestres.
Inovou a Sociologia no Brasil, ao aplicar o método dialético marxista ao estudo científico. Não concebia a sociologia apenas como ciência acadêmica, mas vinculada à transfor-mação social e, para desespero dos cientistas-burocratas, declara com orgulho: “Afirmo que iniciei a minha aprendizagem sociológica aos seis anos, quando precisei ganhar a vida como se fosse um adulto e penetrei pelas vias da experiência concreta no conhecimento do que é a convivência humana e a sociedade”.
Nesse caminho, Florestan buscou o avanço da sociologia como ciência, não apenas como explicação do presente, mas análise do passado e farol do futuro. Superou a oposição Sociologia x História. Comumente, os historiadores classificam a Sociologia de História mal contada, enquanto os sociólogos respondem que a História é uma Sociologia frustrada. Florestan disse: “Procuro um melhor entendimento entre Sociologia e História. É da contribuição de historiadores que tiro boa parte dos materiais com que lido. Uma sociologia destituída de quadros históricos e desinteressada da interpretação do contexto histórico nada tem a ver com o que poderia chamar de minha prática sociológica”, que ele também chamava de sociologia crítica militante.
Outro ensinamento dialético importante de Florestan é a ligação entre o particular e o geral, o específico e o universal. Explica o Mestre: “...Se, ao estudar os tupinambá fiquei confinado à reconstrução histórica delimitada, o esforço que fiz para chegar a explicações gerais, ou seja, ao conhecimento de uma civilização, é patente.... Se ao estudar o negro me dediquei a uma pesquisa de campo das mais complexas que se poderia imaginar, ela se prolongou em uma pesquisa histórica do presente em evanescimento, do passado recente e do passado remoto”. Em relação ao seu trabalho, em geral, esclarece: “Não desvinculei a sociologia da pressão inexorável dos desafios que encadeiam presente e futuro”.
Transformando o Saber em Arma de Combate
Octávio Ianni, que foi aluno e amigo de Florestan, analisa que o pensamento do Mestre se constitui das seguintes fontes: 1 – A Sociologia clássica e moderna; 2 – o pensamento marxista; 3 – a corrente crítica do pensamento brasileiro (Euclides da Cunha, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Caio Prado Júnior, entre outros); 4 – a história do povo brasileiro (índios, negros, camponeses, operários); 5 – o pensamento e a práxis política latinoamerica-nos (José Martí, José Carlos Mariátegui, Ernesto Che Guevara, etc.). Enfatiza Ianni que o trabalho de Florestan Fernandes permite “conhecer o presente, repensar o passado e imaginar o futuro”.
Outro amigo e admirador, Antônio Cândido (crítico literário), fala da evolução do pensamento de Florestan: “O Florestan dos anos 40 é o da construção do saber; o dos anos 50 é o que se apaixona pela explicação do saber do mundo; o Florestan dos anos 60 em diante é o que transforma o saber em arma de combate”.
A Militância Política
Coerentemente, este combate não poderia se limitar ao campo acadêmico. Florestan Fernandes se engaja na luta política, tendo como eixo a Educação. Considerava que o proletariado é o motor da transformação social e, para isso precisaria se apropriar do conhecimento científico, ser bem informado, consciente do seu papel histórico. Essa tarefa, segundo ele, caberia à Educação, não com base na pedagogia tradicional, mas numa pedagogia nova, comprometida, engajada.
Já em 1961, esteve à frente da luta em defesa do ensino público, laico e gratuito, ao lado dos jovens intelectuais da época, entre os quais dois com os quais se decepcionaria anos depois: Fernando Henrique Cardoso e Darcy Ribeiro.
Cassado pelo AI-5 em 1969, saiu para o exterior. Lecionou nas universidades de Toronto (Canadá), Columbia e Yale (EUA). Retornou em 1972, em plena ditadura, e foi lecionar na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Florestan nunca ingressou em alguma das organizações de esquerda. Considerava-se um “lobo solitário”. Mas participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), ao qual se filiou em 1986, a pedido de Lula. Foi deputado federal constituinte (1987-1991) e foi reeleito para o mandato seguinte (1991-1995). Pautou sua atuação parlamentar no tema da Educação, defendendo o ensino público e gratuito e como um dos principais construtores da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).
Sobre a experiência parlamentar, Florestan avaliou que o Parlamento brasileiro é sustentáculo da política imperialista e a constituição de 88, um processo inacabado, que se distanciou das organizações populares. Mas, como aspecto positivo, considerava que mais do que em seus estudos acadêmicos, o Parlamento lhe permitiu “ver como atuam as elites econômicas, as elites culturais, as elites jurídicas, as elites militares, deputados e senadores predominantemente escolhidos dentro desses setores”.
Mas acreditava no avanço da consciência e da organização popular, na vitória dos oprimidos na disputa com a burguesia pelo poder político, econômico e social. Em sua obra Nova República?, afirma: “...O Brasil nunca mais será igual ao que foi no passado e hoje a possibilidade de uma ruptura definitiva com a ditadura existe. ...Enquanto as classes burguesas mais ou menos liberais ou conservadoras se apegam ao roteiro da transição democrática herdado da ditadura, as classes proletárias (englobando-se campo e cidade) e os setores radicais da pequena-burguesia avançam na direção da revolução democrática. Mas revolução democrática não é um conceito vazio ou mera reforma do capitalismo. A revolução será especificamente proletária ou não haverá revolução”.
Florestan Fernandes morreu no dia 10 de agosto de 1995. Seu legado científico, composto por mais de cinqüenta obras, seus ensinamentos, nunca morrerão.