Internacional : Como os bolcheviques financiaram sua revolução
em 13/07/2010(214 leituras)
Mesmo sob o jugo do regime czarista e sofrendo uma grande perseguição, os bolcheviques russos conseguiram financiar suas lutas e conduzi-las até a realização da revolução. Utilizaram, para tanto, medidas como caixas externos (para colaboração financeira) recolhidos entre apoiadores, contribuição de jovens que resistiam ao regime do czar, recolhimento regular de contribuições dos próprios operários para preparação das greves, eventos ou venda de produtos para o fortalecimento das caixas sindicais.
Assim, enquanto os revolucionários russos levavam a cabo as lutas
operárias, os próprios operários sustentavam esses mesmos profissionais.
Um exemplo claro disso é que vários militantes demitidos e presos
(mesmo com toda precaução utilizada) tiveram seu sustento garantido
pelas caixas de greve, as quais se tornaram permanentes e foram
suficientes para ajudar, tanto na libertação como na manutenção das
famílias desses revolucionários.
A centralização do trabalho de construção material
A linha central do pensamento bolchevique era a de que todo o trabalho partidário deve ser centralizado. Como? Primeiramente, deve existir um grupo compacto de revolucionários organizados de forma profissional, exclusivamente dedicados à causa socialista. Devem esses estar convencidos disso e, posteriormente, levar a cabo as lutas do proletariado, resultando assim no seu fortalecimento, aumento da sua agitação política, estrutura financeira e ampliação do quadro de militantes. Logo, o primeiro ato do revolucionário é organizar uma vanguarda proletária profissional, unificada e centralizada, capaz de debater as condições políticas momentâneas e futuras, e construí-la na pratica.
Os órgãos dirigentes devem conhecer, em profundidade, o trabalho de construção do partido. Devem conhecer seus militantes, ser capazes de indicar os melhores caminhos, assim como os dirigidos, núcleos de base, e devem prestar contas, regularmente, das atividades partidárias e das metas estabelecidas.
No campo da construção material, fica ainda mais bem definida tal centralidade. Os órgãos dirigentes, por estarem com maiores responsabilidades políticas, têm condições objetivas de alocar melhor os recursos, bem como apresentar planos factíveis por conhecerem em profundidade os organismos de sua responsabilidade.
Exemplo: a revolução se deu na Rússia com caráter nacional, quer dizer, envolvendo as diversas regiões de um país quase continental. Seria possível acelerar o processo revolucionário concentrando os quadros do Partido em apenas umas poucas regiões? E quanto aos reforços necessários quando outros membros ou comitês do partido estiveram fragilizados?
Por outro lado, as atividades partidárias não se resumem aos seus órgãos dirigentes. Isso quer dizer que há descentralização nas atividades partidárias. A vitória do socialismo na Rússia passou por convencer um conjunto considerável de operários e outras camadas sociais da necessidade de financiar, ela própria, a sua emancipação.
Embora houvesse grandes dificuldades enfrentadas pelos bolcheviques, eles conseguiram montar um plano de crescimento aliado a uma acertada concepção política. Conseguiram aplicar os poucos recursos em condições de profunda repressão. Conseguiram, como vanguarda dirigente, centralização e descentralização capazes de conduzir à tomada do poder.
A Colaboração Regular
Além de acertar na ideia de o trabalho revolucionário ser profissional, os bolcheviques venceram a luta contra o “espontaneísmo” nas organizações partidárias. Em outras palavras, os bolcheviques organizaram sua revolução baseando sua ação, sobretudo, nos seus órgãos partidários. A atividade consciente dos seus membros passava pela contribuição regular dos seus militantes, bem como da atividade regular dos seus núcleos e órgãos dirigentes. Sem essa condição, nenhum operário poderia ingressar nas fileiras do partido.
Tal fato foi uma condição de financiamento regular dos organismos partidários. Ora, seria justo um membro do partido não construí-lo regularmente? Os bolcheviques acertaram porque acreditaram na sua própria força e conseguiram um conjunto de militantes capazes de contribuir “com meios materiais” (doações pessoais, cota financeira, entre outros) e “sua participação regular” (construindo atividades no seio da classe operária, elevando sua consciência e possibilitando a ampliação da base do partido).
Essa foi uma das maiores lições trazidas pelos bolcheviques ao movimento comunista internacional.
Os meios complementares e auxiliares de financiamento da revolução
Embora o financiamento partidário por meio da contribuição regular de membros e apoiadores fosse o principal trabalho de construção material, os bolcheviques criaram, ao mesmo tempo, meios auxiliares ou complementares capazes de impulsionar, de forma rápida, as atividades.
O trabalho consistia em reunir o apoio das camadas mais avançadas da sociedade russa, profundamente indignadas com o terror czarista e lutavam pela democracia. Os comitês partidários tiveram a obrigação de aproximar estudantes, intelectuais, funcionários em geral, em lutas específicas e “econômicas”, as quais possibilitavam a ampliação do quadro financeiro do partido. Os bolcheviques conseguiram criar uma rede regular de apoios capaz de manter, em alguns momentos, muitos dirigentes do partido.
Essa atividade, ao mesmo tempo, só foi possível porque os bolcheviques gozavam de grande autoridade moral. Eram vistos por todos esses setores como os revolucionários mais consequentes, sérios, preparados e com uma acertada tática e estratégia políticas. Além disso, porque defendiam uma independência total da classe burguesa em geral.
Para os bolcheviques, era preciso aproveitar todas as forças. A classe operária não poderia dispensar os mais ínfimos apoios, mesmo porque a soma deles resultaria em grandes contribuições. Até mesmo o apoio de párocos ou outras autoridades religiosas foi aproveitado: desde aparelhos, como esconderijos, até mesmo disfarces, acobertados e financiados por membros da igreja, para muitos revolucionários fugirem.
O apoio internacional à Revolução Soviética
Os bolcheviques venceram enormes batalhas para conquistar o poder. Algumas internas, presentes apenas na Rússia, e outras internacionais, como o combate à II Internacional Comunista, liderada por Karl Kautsky. A partir dessa luta, o bolchevismo tornou-se uma corrente de pensamento internacional e, por isso, agregou em volta de si elementos numerosos, herdeiros dos ensinamentos de Marx e Engels.
O principal líder da revolução bolchevique é um exemplo do apoio internacional à causa bolchevique. Foi preso na Sibéria por três anos (1897-1900). Logo depois teve que se radicar na Suíça. Por ocasião da revolução de 1905, retornou à Rússia (novembro) e apoiou a greve geral de Moscou. Em seguida, foi forçado a deixar a Rússia (dezembro de 1907) e residiu a maior parte do tempo em Genebra ou em Paris. Só retornou à Rússia, após a queda do czarismo, através da Alemanha (3 de abril de 1917).
Além de Lênin, outros inúmeros membros do partido bolchevique necessitaram da solidariedade internacional para manter suas atividades revolucionárias. Como isso foi possível? Pelos ensinamentos marxistas, de que a revolução é obra da classe operária inteira, não de apenas um país em especial.
Posteriormente à revolução, foram os bolcheviques russos os que mais contribuíram com a revolução internacional, ao fundarem a III Internacional Comunista, que carregou consigo uma enorme experiência e colaborou materialmente para as revoluções que se sucederam.
Em resumo, para os bolcheviques vencerem, necessitaram de uma enorme amplitude no trabalho de construção material. Sem isso, o crescimento e expansão da base seriam muito menores e o partido teria sido incapaz de realizar a vitoriosa revolução em 1917.