Internacional : Estados Unidos pavimentam caminho para agredir o Irã
em 11/06/2010(286 leituras)
Os governos do Brasil e da Turquia anunciaram, no dia 17 e maio, a assinatura de um acordo com o Irã que prevê o envio a território turco de 1.200 quilos de urânio iraniano enriquecido a 3,5% em troca de 120 quilos de urânio enriquecido a 20%, na Rússia ou França, volume suficiente à produção de isótopos médicos para o tratamento de doenças como o câncer e muito abaixo dos 90% de enriquecimento necessário à produção de uma bomba atômica.
O acordo foi considerado pelos signatários como um grande avanço para evitar que o Irã sofresse novas sanções ou que tivesse que renunciar a seu direito de desenvolver a tecnologia nuclear para fins pacíficos, direito que é duramente negado pelos países imperialistas que detêm a exclusividade dessa tecnologia.
Entretanto, descontente com a repercussão positiva do acordo, e vendo prejudicados seus planos belicistas para o Irã, o governo dos Estados Unidos lançou imediatamente uma campanha midiática para desacreditar o acordo e minimizar seus efeitos, usando os velhos argumentos de que o Irã usará seu programa civil de produção de energia nuclear para desenvolver armas atômicas, que o pacto firmado possui uma série de lacunas e que, na verdade, sua assinatura “deixaria o mundo mais perigoso”, pois seria uma estratégia iraniana para ganhar tempo e desenvolver ainda mais sua capacidade nuclear. “Há certa quantidade de lacunas que não respondem às preocupações da comunidade internacional”, disse a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, que, quando fala de “comunidade internacional”, refere-se na verdade aos países imperialistas.
Dois dias depois do anúncio do acordo, Hillary Clinton anunciou entusiasticamente que os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Reino Unido, China, França e Rússia) entraram em acordo sobre um novo projeto de resolução prevendo sanções mais duras ao Irã e às suas “pretensões nucleares”. As principais medidas prevêem punição para importação, por parte do Irã, de armas convencionais, coloca restrições relacionadas à importação de mísseis, congela os bens dos chefes da Guarda Revolucionária Islâmica e estabelece inspeções de cargas em portos e em águas internacionais. Essa é a quarta vez que o Conselho de Segurança da ONU impõe sanções ao país.
Desde o anúncio do acordo, os Estados Unidos fizeram todos os esforços para debilitar qualquer solução negociada para a questão. Uma contradição, já que o país é governado pelo atual Prêmio Nobel da Paz, a quem caberia a iniciativa principal de promover o diálogo e insistir em saídas pacíficas, em lugar de defender sanções e ameaças militares. De acordo com o porta-voz da Casa Branca, Bill Burton, o governo dos EUA vai “continuar pressionando o Irã de todas as formas. Nós vamos continuar até que o Irã cumpra suas obrigações internacionais”, disse.
Em resposta, o diretor da Organização de Energia Atômica iraniana, Ali Akbar Salehi, afirmou que as potências se desacreditam diante da opinião pública ao persistir na campanha por novas sanções. “Pela primeira vez, sentem que os países emergentes podem defender seus direitos no cenário internacional sem necessidade de recorrer às grandes potências, e isto é algo difícil de aceitar para eles. Os países ricos sempre estão buscando desculpas e pretextos para exercer pressão política sobre o Irã. Seu principal propósito é nos induzir ao enfrentamento com o Ocidente, apesar de nós insistirmos que não queremos esse conflito”, disse. “A desculpa anterior foi que o Irã não tinha aceitado a proposta de trocar 1.200 quilos de urânio a 3,5%. Eles insistem que era o Irã que evitava o acordo. Agora que aceitamos essa condição, inventam outra série de desculpas”, completou Salehi.
Mas quais os verdadeiros objetivos da pressão e das ameaças feitas contra o Irã e quais suas “obrigações internacionais”, segundo o governo dos Estados Unidos?
Em primeiro lugar, o que está em disputa é o controle das fontes de energia existentes no Oriente Médio. A capitulação do Irã e sua passagem para a esfera de influência norte-americana, como aconteceu com o Iraque, significariam um enorme crescimento das reservas de petróleo sob controle dos EUA.
Em segundo lugar, derrotar o regime islâmico dominante no Irã, em que pesem suas características reacionárias, significa uma profunda mudança na correlação de forças na região. Com isso, Israel deixaria de ter qualquer adversário militar à altura, a resistência palestina perderia seu principal aliado e os governos árabes pró-americanos teriam maior tranquilidade com um possível enfraquecimento das correntes islâmicas internas mais radicais.
Por fim, a atual ofensiva contra o Irã faz parte dos esforços dos Estados Unidos para modificar, em seu favor, o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que estabelece o monopólio das armas nucleares nas mãos de cinco países: EUA, Rússia, França, China e Grã-Bretanha, enquanto os demais signatários renunciam ao desenvolvimento da energia atômica para fins militares. Entre essas assinaturas não estão as de Paquistão, Índia e Israel.
Transformar o Irã em domínio norte-americano e calar qualquer voz na região que se levante contra a política belicista e colonialista dos Estados Unidos, eis o objetivo de toda campanha atualmente desenvolvida.
Todo o problema é que não existe nenhum motivo real para uma agressão militar contra o Irã porque, afinal, o país não está envolvido em nenhum conflito armado com seus vizinhos ou buscando subjugar pela força outros povos. Ao contrário de Israel, país que possui mais de 300 armas nucleares, cuja política belicista e de opressão contra os palestinos desrespeita seguidos acordos e resoluções internacionais e que conta com a total conivência do todo-poderoso Conselho de Segurança da ONU.
Foram-se os dias do belicismo desenfreado de Bush, mas sob a fala aveludada e o sorriso maroto do “Nobel da Paz” Barack Obama continuam vivos os mesmos anseios intervencionistas do imperialismo estadunidense. Como diz a sabedoria popular: o lobo troca o pelo, mas não perde o viço.