Em dezembro de 2009, milhares de ativistas sociais acompanharam a reunião da Conferência da Convenção do Clima (COP-15), organizada pela Organização das Nações Unidas (ONU). A ideia do evento era reunir ministros do meio ambiente e chefes de Estado para fechar um acordo: reduzir os gases que provocam o efeito estufa e elevam a temperatura do planeta. A dificuldade era, e continua a ser, quanto e quem deve realizar tal feito. Mesmo depois de vários discursos, palestras, conferências e negociações à parte, chegou-se ao resultado mais inesperado possível: nenhuma proposta em consenso. As mesmas autoridades que invocaram “a necessidade urgente de reduzir as causas do efeito estufa”, o “papel histórico das nações” ou “a ilegitimidade de acordos de gabinete” não conseguiram construir uma proposta conjunta.
Ora, se são autoridades nos seus países, por que não assumirem essas
responsabilidades? O que os impede? É um fato inegável, e até o mais
incrédulo já se convenceu de que ou se muda a realidade ou o mundo irá à
catástrofe. O fato é que, atrás dos “holofotes”, existe algo que não se
discutiu. Há verdades que, por mais claras que sejam, não foram
exibidas durante os mais de cinco dias da cúpula.
Nosso modo
contemporâneo de vida afundou. Somos seres humanos coisificados,
mercantilizados, meras peças de um sistema que gira em torno do consumo.
Isso mesmo. É a velha mão invisível smithiana do mercado. A entidade
santificada, cristalizada no imaginário das anestesiadas pessoas do
planeta azul chamado Terra.
Mas não se deprima, caro leitor. Somos
todos iguais perante o mercado, somos consumidores. E é só? Bem, mas
quem manda no final? O divino Espírito Santo? Não! O mercado tem dono, e
não é o povo. Os donos do mercado são os mesmos que, embora não
esbanjem no peito a faixa de autoridades estatais estabelecidas, mandam
nos Estados e seus ministros, chefes e qualquer coisa que o valha.
Outro
dia, joguei um copo no chão e fiquei incomodado. Recolhi após ser
chamado à atenção e percebi que realmente poderia não mais jogar lixo no
chão, e isso ajudaria o planeta. Mas também pensei: ora, se todos
deixarmos de jogar o lixo nas ruas será muito bom. Mas mesmo assim se os
empresários que pensam única e exclusivamente no lucro não utilizarem
energia limpa, continuaremos com o efeito estufa e com bilhões de
toneladas de gases tóxicos jogados na atmosfera. Não basta eu mudar...
tem que todos mudarem.
Mas, então, podem eles mudar de postura
pela própria vontade? Certamente, não. O processo de avanço do capital
requer aumento de produtividade do trabalho, baixos custos, seja de mão
de obra (principal) ou de despesas operacionais. Por exemplo, a empresa
Gerdau, metalúrgica de propriedade de Jorge Gerdau, precisa construir
suas ligas de aço para a construção civil. Para ter mais lucro,
necessita de ferro à disposição a um preço baixo. Não importa se a
extração é feita com a utilização de resíduos tóxicos ou se há
desmatamento para tanto. Ao mesmo tempo, para realizar o processo
produtivo, sua energia tem também que ser barata. Se o diesel é menos
oneroso, melhor. Por que não implantar uma usina de energia solar? Sai
caro!
Não se trata de boa-fé ou vontade dos donos do mercado.
Trata-se do modo capitalista de produção. Ou muda o conteúdo, ou a forma
não mudará. E esses mesmos não estão dispostos. Requer abdicarem de
altos índices de lucratividade, requer diminuírem seus ganhos reais para
salvar o planeta, requer exigir consciência de alguns poucos indivíduos
que só veem a cor verde de notas de dinheiro. Eles realmente não vão
fazer isso! Por isso, o decadente império norte-americano e o jovem
império capitalista chinês praticamente impedem quaisquer opções de
redução dos gases. Defendem, com unhas e dentes, seu capitalismo, esse
modo de vida absurdo, essa desarmonia repugnante que destrói nosso
planeta.
Chegamos ao nó da questão. Lembra a autoridade? Como os
governantes vão impor sua autoridade aos empresários se esses são os que
“obrigam” os governantes a não criarem sequer metas de redução de
gases? Como eles irão mudar, se são poderosos suficientemente para impor
sua vontade e ainda dominar os meios de comunicação e afirmar que a
culpa é de todos nós, já que não plantamos árvores suficientes?
Estamos,
então, num beco sem saída. Mas podemos sair dele se decidirmos mudar
nosso mundo. Se decidirmos lutar contra as reais causas da destruição da
natureza. Se colocarmos a nós mesmos os desafios de construir um mundo
novo, sem exploração do homem e numa convivência harmoniosa com a
natureza. Construir um mundo no qual os trabalhadores possam decidir os
rumos da sua economia, do futuro das suas vidas. Poderíamos chamá-la de
sociedade futura, ideal, fraterna, soberana. Prefiro chamá-la de
socialista.