No dia 7 de outubro, uma composição enguiçou perto da estação de Nilópolis, na Baixada Fluminense. O problema com os trens se espalhou para outras estações e milhares de pessoas ficaram sem transporte. Os passageiros saltaram na linha de ferro e fizeram um protesto no local. Um vagão foi queimado, a estação foi toda quebrada e a repressão policial foi intensa.
O passageiro Victor Lima denunciou o que aconteceu: “O trem do ramal Saracuruna-Central do Brasil, que ia no sentido Central, quebrou e fez com que eu, assim como centenas de outras pessoas, nos expuséssemos a uma série de riscos. Além de termos que desembarcar no meio da linha férrea, tivemos que andar por cerca de cinco minutos pelos trilhos que cortam uma das áreas mais perigosas do Grande Rio". Luciene Marcelino, que também ia no trem, acrescentou: “Às 8 horas começou o tumulto porque não devolveram o dinheiro e os passageiros não conseguiam sair da estação. Esta é a realidade que vivemos com a Supervia. O desrespeito é geral. E um dos seguranças surgiu com um cão, enquanto policiais circulavam com fuzis no meio do pessoal".
O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), acusou os usuários dos trens de vândalos e vagabundos e disse que todos que participaram da manifestação deveriam ser presos. Os trabalhadores, indignados, são diretos na resposta: “Eu acho que o governador deveria andar de trem antes de dizer uma asneira dessas. Para quem não anda de trem é mole, andar de motorista é mole, quero ver pegar o trem de manhã lotado indo trabalhar e o trem não sair do lugar, ficar o maior tempão e a pessoa estar arriscada ainda a perder o emprego por causa do meio de transporte. Ele não está ajudando em nada”, diz Leandro Lisboa, usuário do trem. Camila Oliveira, que também usa o trem e trabalha no mercado da Central, reforça as palavras de Leandro: “Ninguém é vagabundo e ninguém tem que ser preso. Todo mundo está ali para trabalhar. Ele quer que todo mundo fique calmo com a situação. Ele não depende de trem para ir para o trabalho”.
No dia seguinte, o mesmo fato se repetiu na gare da Central do Brasil. Após novos problemas operacionais, a Central foi fechada e vários passageiros não tiveram como voltar para casa. Revoltados, os usuários gritavam “fora, Cabral!”. Para dispersar a multidão, a polícia recorreu à força e usou gás de pimenta e balas de borracha. Leandro relata a situação: “Um amigo que trabalha comigo vinha para cá e não o deixaram passar. Ele tentou correr no sentido contrário, para sair da confusão, e tomou um tiro de borracha na mão. Vai ter que ficar um tempo sem trabalhar.”
Velhos problemas
Em 1941, há 68 anos, o cantor de rádio Roberto Paiva lançava uma marcha de Carnaval que ficou famosa pela força da sua verdade, “O trem atrasou”. Em apenas duas estrofes, os compositores Paquito, E. Silva e A. Vilarinho resumem o dia a dia do trabalhador obrigado a usar este meio de transporte:
“Patrão, o trem atrasou
Por isso estou chegando agora.
Trago aqui um memorando da Central
O trem atrasou meia hora.
O senhor não tem razão
Pra me mandar embora!
O senhor tem paciência,
É preciso compreender,
Sempre fui obediente,
Reconheço o meu deve.r
Um atraso é muito justo
Quando há explicação.
Sou um chefe de família
Preciso ganhar meu pão
E eu tenho razão.”
Hoje a história se repete, mas em forma de tragédia, e a resposta que se dá à indignação da população é a repressão, o descaso do governo e nenhuma solução. No início do ano, o Sindicato dos Ferroviários avisou que acidentes graves poderiam acontecer na Supervia e, agora, a situação chega ao extremo, confirmando as apreensões dos sindicalistas (v. A Verdade nº 105)
Os trens são um transporte público, uma concessão do Estado para a Supervia administrar. Ao contrário do que parece, a Supervia não é dona dos trens, e sim presta um serviço que não é fiscalizado pelo Estado. Prevalece, portanto, a lei do lucro, e ela tem como finalidade única garantir aos donos da empresa que eles terão lucros sob quaisquer circunstâncias, independentemente de se as necessidades mais básicas do povo estejam sendo atendidas ou não. Ao governador compete, como representante e marionete desses interesses, manter a população sob cerco policial, obrigando-a a se submeter às mais indignas condições para que nenhuma mudança seja realizada. Dessa maneira vivem os trabalhadores que dependem do transporte de trem no Rio de Janeiro.