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Brasil : Neguinho: “Revolução se faz com mudanças nas estruturas da sociedade”

em 20/10/2009 (388 leituras)

Antônio Geraldo Costa, Neguinho, é o último exilado brasileiro a regressar ao país depois da anistia de 1979. Natural de Capela (Zona da Mata de Alagoas), foi marinheiro e militante da ALN e retorna à sua pátria com 75 anos, mas com a disposição de contribuir para a luta dos oprimidos. Preso e torturado, em 1969, cruzou a fronteira com o Uruguai, seguindo pela Argentina, Chile e, por fim, chegou à Suécia, onde viveu por 25 anos.

Após participar de um debate no Centro Cultural Manoel Lisboa, em Recife, no dia 16 de setembro, concedeu entrevista a A Verdade.



A VERDADE – Como foi seu despertar para as questões políticas ainda como marinheiro?
Antônio Geraldo Costa: Minha família é uma família de negros lutadores, que repassou esse espírito, de geração em geração. Então, quando eu entro na Marinha, em 1953, já tinha noção de capitalismo e socialismo, já sabia distinguir. Já tinha em mim uma indignação contra essa sociedade injusta. Lá na Marinha encontrei também muita injustiça. Os marinheiros não podiam votar,  nem sequer casar. Foi aí que fundamos a Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB), da qual fui vice-presidente. Essa associação funcionou por dois anos e teve duas diretorias. Os marinheiros são trabalhadores como outros, mas nós éramos tratados como lixo. Havia uma disciplina para os oficiais e outra para nós, os subalternos. Havia até castigos físicos, mesmo já estando proibidos nessa época. Então iniciamos um trabalho de conscientização para que os marinheiros participassem da política nacional, das reformas de base do governo João Goulart. Aprendi muitas coisas na Marinha e fiquei mais consciente a partir da luta.

A VERDADE – Você era uma das principais lideranças do movimento quando ocorreu a chamada “Revolta dos Marinheiros”, utilizada pelos comandos militares como pretexto para o golpe de 1º de abril de 1964. Como foi essa luta?
Geraldo: No dia da “Revolta”, eu já estava preso. Várias lideranças foram presas preventivamente sob o argumento de serem agitadoras. Na verdade, não houve revolta. Existiam cerca de 21 mil marinheiros em todo o Brasil, e, destes, 18 mil estavam filiados à nossa associação, e isso era fruto da necessidade de uma organização que falasse por eles. Então o alto comando militar temia nossa força. Apenas queríamos nossos direitos, e, naquele dia, o Cabo Anselmo liderou a manifestação. Inclusive ele deu uma entrevista recente na TV, mas eu não quis assistir. Ele é uma farsa. Nem cabo ele era. Era marinheiro de primeira classe. E essa entrevista, feita pela Rede Bandeirantes, é uma prova de como a imprensa burguesa dá espaço a essa gente. Outra mentira é essa história de Revolução de 1964. Quando deram o golpe e tomaram o poder, eles chamaram de revolução, mas revolução mesmo se faz com mudanças nas estruturas da sociedade, e a sociedade brasileira é basicamente a mesma, até hoje.

Geraldo NeguinhoA VERDADE – Ainda em 1964, a Ação Libertadora Nacional (ALN) o libertou da prisão. Como você suportou o período de prisão e torturas, e quando passou atuar na clandestinidade?
Geraldo: As torturas são desumanas, não gosto de falar delas. É tudo horrível, e hoje é constrangedor. Após esse primeiro período, fui transferido para várias prisões diferentes e, em dezembro [de 1964], ao apresentar-me a um juiz, meus companheiros me retiraram da prisão.  Gosto de dizer “nós nos retiramos” e não “nós fugimos”. Aí está a importância de se ter uma organização política, uma infraestrutura, tanto no ato quanto depois, para resguardar. Contei com a determinação de meus companheiros que estavam fora para me tirar de lá de dentro. Foram quase seis anos de clandestinidade, transitando pelos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Mato Grosso, fazendo articulações políticas e me preparando para a luta armada. Pude também participar da ação que libertou vários companheiros do presídio Lemos de Brito, no Rio. Às vezes, falam da luta armada como se saíssemos por aí atirando. Não. Aquilo era a nossa defesa indispensável por causa da repressão. Fizemos o que foi preciso.

A VERDADE - E o exílio na Suécia?
Geraldo: Chegou um momento em que estávamos muito perseguidos. Então ou saíamos ou seríamos mortos. Quando cruzei a fronteira com o Uruguai, jurei que um dia voltaria, pois os que usurparam o poder é que eram os terroristas! Passamos pela Argentina, pelo Chile, e recebemos o convite do governo sueco para nos exilarmos lá. Fomos muito bem recebidos na Suécia, que era um país democrático. Levamos um choque positivo pelas relações sociais e um tremendo choque pelo frio! Lá o sol se põe às quatro da tarde e nasce às nove da manhã. Recebi uma bolsa de seis meses para estudar o básico da língua para poder trabalhar. Fiz de tudo. Comecei como jornaleiro. Saía às três da manhã, de bicicleta, mas o frio era muito intenso e só aguentei três meses. Depois trabalhei como cozinheiro num restaurante, como técnico em geologia, como acompanhante para idosos. Deixei família lá e pretendo voltar sempre, mas agora como turista. Aqui no Brasil uma parte da minha família morreu de “morte morrida” e outra de “morte matada”, e ainda vou pesquisar quem está vivo. Estou agora me readaptando ao Brasil e decidindo se fixo residência no Rio de Janeiro ou no Nordeste.

A VERDADE – Por que você demorou tanto para retornar ao Brasil?
Geraldo: Porque, nessa democracia relativa em que vivemos, até hoje nenhum governo teve coragem de abrir os arquivos da ditadura para que os torturadores fossem julgados e condenados por seus crimes. Por que não abrem?! Se o governo não tem força contra aqueles que querem impedir a abertura, então o povo precisa se manifestar. Quando veio a Anistia, eu não acreditei. Anistia para os torturadores?! Tortura é crime de lesa-humanidade, portanto é imprescritível. Demorei, mas volto com o sentimento de dever cumprido e continuarei a cumpri-lo.

A VERDADE – Como foi sua chegada ao Brasil e o como você vê hoje a política nacional?
Geraldo: Fui recepcionado no Brasil pelos amigos, veteranos de luta. Me surpreendeu a grande recepção no aeroporto. O ministro da Justiça, Tarso Genro, enviou um representante do ministério para dar-me as boas-vindas e prestar apoio. Com o governo Lula, esperávamos alguma mudança, não tão profunda, é claro, mas não foi o que aconteceu. Eu esperava mais. O Bolsa Família é positivo, mas nada demais, nada que já não propúnhamos para dentro de um contexto democrático, no contexto das reformas de base. Mas isso não resolve o problema da fome no Brasil. O Brasil melhorou bastante para certos grupos da sociedade, porque para o povo mesmo a pobreza só aumentou. Isso é um problema estrutural. Apenas algumas categorias mais organizadas politicamente, com sindicatos mais fortes, puderam melhorar de vida, garantiram os acordos coletivos de trabalho, o que é um avanço da luta sindical. Por isso é que nós da esquerda devemos lutar pelas medidas necessárias. Por exemplo, lutar para que os recursos do pré-sal beneficiem todo o Brasil, barrar a cobiça das multinacionais que querem tomá-lo de nós.

A VERDADE – Qual mensagem você gostaria destacar aos leitores de A Verdade?
Geraldo: A mensagem que quero deixar é a de que faria tudo de novo se fosse necessário, só que agora com mais experiência. Os jovens não podem deixar que se repita a barbárie de um regime fascista no nosso país. A juventude deve se educar, se organizar, ficar alerta e ir à luta. E mais do que nunca temos que ficar de alerta, pois tudo pode se repetir. Dentro dessa democracia relativa ninguém pode garantir que não haverá mais golpes de Estado. Não podemos nos iludir. Vejam o caso de Honduras e da Colômbia. Os EUA não querem perder a hegemonia mundial e vão tentar implantar mais bases na América Latina. Eles querem reduzir a Colômbia a uma imensa base sua. Portanto nossa tarefa é grande, mas não podemos temê-la.

Rafael Freire

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