Como aposentado do INSS (Abrigo do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro), não me tem sido fácil ligar o rádio e a TV, ou abrir os jornais, e me deparar com comentaristas que ganham altos salários dizendo que reajuste para servidores e concurso público nesta crise é um absurdo, e que aposentados e pensionistas do serviço público são um peso no orçamento - como insiste em afirmar a Rede Globo.
Por outro lado, não falam dos
donos de lojas que consideram um risco abrir crediário para maiores de 65 anos
no ato da compra, assim como não falam de banqueiros, empresários e
especuladores que continuam, mesmo com a crise, se enriquecendo e levando
dinheiro para fora do país e bancando a vida luxuosa de suas famílias. Como
também não falam das crises enfrentadas pelos trabalhadores ativos, aposentados
e pensionistas ao longo de décadas por conta dos salários miseráveis que não
lhes permitem manter as necessidades mínimas de suas famílias, no que concerne
principalmente à educação e saúde privadas, uma vez que a pública é um
desastre.
Além disso, milhares os
trabalhadores que, após cumprirem seu período de atividade laboral, têm seus
salários reduzidos a migalhas ao ingressar na aposentadoria, sendo obrigados a
retornar ao mercado de trabalho para sustentar a família, que na fase atual
está acrescida de filhos e netos desempregados. Sem ter como resolver problema
tão complexo, o aposentado fica doente ou morre, por não ter como comprar seus
remédios. Acrescido a isso, a imprensa burguesa não toca na Reforma da
Previdência, que roubou direitos importantes dos trabalhadores - como no caso
da paridade (salários iguais entre ativos, aposentados e pensionistas do
serviço público).
Desta forma, o governo obriga
o servidor a trabalhar até ficar doente ou a sair na compulsória aos 70 anos de
idade, ganhando menos, uma vez que não mais vai progredir na carreira, como os
demais. Se vier a morrer, melhor ainda para o governo. Golpe baixo e diabólico,
este. Não fala, ainda, da covardia da bancada governista, que trabalha para
rejeitar as emendas constitucionais que favorecem aposentados e pensionistas da
iniciativa privada, entre elas a do senador Paulo Paim, que acaba com o fator
previdenciário, passando a corrigir parte das injustiças. Este projeto, o
presidente Lula já anunciou que vetará.
Vale lembrar queos parlamentares contrários ao projeto
do senador Paim são os mesmos que promovem e defendem as farras das passagens,
gastos abusivos de combustíveis, contratação de funcionários para gabinetes
exercendo funções particulares, e outras tantas farras com o dinheiro público.
São também os mesmos que defendem a PEC dos precatórios (calote no cidadão que
recorreu à Justiça pelos seus direitos negados pelo governo e ganhou). Nesse
projeto de Renan Calheiros, é concedido ao governo o direito de pagar em até 15
anos. Uma pessoa com 75 anos de idade corre o risco de não receber. Esta é a
intenção.
Este governo se diz dos
trabalhadores, mas empresta dinheiro a empresa que reduz salários e demite para
manter intactos seus lucros, para salvar bancos ao invés de nacionalizá-los e
incorporá-los ao Banco do Brasil ou à Caixa Econômica, a fim de financiar a
produção e construção de casas populares. Um governo que oferece dinheiro ao
FMI, que oferece empréstimo consignado e leva o trabalhador a mergulhar
em dívidas por não receber salários dignos, que não respeita a Justiça brasileira,
a Constituição e o Estatuto do Idoso; que permite, também, os abusos nos
aumentos das mensalidades escolares e dos planos de saúde, cujos donos se
encontram em Brasília, como é o caso da Geap, que, nos últimos anos, aumentou a
percentagem de desconto em contracheque de 3% para 6% e 8% e, recentemente,
passou para mensalidades fixas, o que veio prejudicar e muito aqueles que têm
maior número de dependentes. A alegação é de déficit orçamentário, mas a
verdade que levou a isto foi a ganância, pois sempre obtiveram ganhos na
evolução dos percentuais e, agora, com os reajustes dos salários dos servidores
ocorridos ultimamente. Um governo que discrimina aposentados e pensionistas
deste país ao não lhes permitir melhores condições de sobrevivência, como se fossem
um copo descartável que você usa e joga fora, apesar de estarem todos voltando
ao mercado de trabalho, ainda não tem o direito de dizer que é um governo dos
trabalhadores, apesar dos pequenos avanços em relação aos anteriores.
Quem produz as riquezas deste
país não pode continuar sendo tratado dessa forma. O dia em que aposentados e
pensionistas, mesmo em cadeiras de rodas, se juntarem aos ativos e tomarem as
ruas e praças, tenham a certeza de que Brasília vai tremer. Quem viver verá.
Contra a discriminação e as injustiças, o socialismo é a solução.
Antonio Carlos de Abreu - Diretor do Sintrasef-RJ e
militante do MLC